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24 abril 2007

Nada

De súbito terminou aquela febre outrora incessante de copiar para o papel situações, sensações, criações e opiniões que surgiam em espiral do nada. À minha frente, apenas uma folha em branco. Minto, à minha frente estava, na realidade, uma janela do processador de texto vazia. O que era praticamente a mesma coisa.
E fiquei assim, durante uma curta eternidade (onde é que eu vou arranjar tantas expressões idiotas como esta?) à espera que me surgisse uma inspiração. Inspirei uma vez, inspirei outra vez e mesmo assim nada de inspiração.
Pensei em várias coisas que pudessem servir de ponto de partida. O amor, a vida, a natureza, o mar, a morte ou a música como exemplo para a ficção ou a poesia. Sobre a actualidade, o leque ainda era maior - desde política a futebol. Mas de uma forma ou de outra, numa altura ou noutra, já tinha escrito sobre tudo isso.
Continuei a olhar para o monitor.
Senti-me tão vazio como a janela do processador de texto.
Foi então que, após uma expiração, surgiu a inspiração.
Uma vez que já tinha escrito sobre tudo, porque não escrever sobre nada?
Agarrando-me firmemente a esta ideia, tentei dar o melhor escrevendo sobre nada.
Falhei.
A única coisa que consegui foi um pequeno texto de exactamente duzentas e vinte e nove palavras sobre a única vez em que tentei escrever sobre nada.

02 abril 2007

Doçaria Religiosa

Hoje de manhã entrei numa pastelaria e pedi um pão de deus. Soube-me bem.

Aliás, soube-me tão bem que decidi escrever um post com o seguinte conteúdo: "Hoje de manhã entrei numa pastelaria e pedi um pão de deus. Soube-me bem."

E escrevi.

Mas depois olhei para o que tinha escrito e, à falta de qualquer coisa melhor para fazer, comecei a examinar atentamente o meu texto. Surgiu uma dúvida: deveria antes ter escrito a palavra deus com a primeira letra maiúscula?

Normalmente escreve-se deus (substantivo) para referir um deus qualquer; Deus, por outro lado, é o nome do deus das religiões cristãs (aqui podemos encontrar alguma falta de originalidade na concepção das mesmas). O facto de alguém, num passado distante, se ter lembrado de chamar Deus ao deus ainda hoje gera uma enorme confusão. Isto porque nomes há muitos e, bem vistas as coisas, tanto podia ser Deus como Bernardo, Luciano ou Eusébio, o que seria muito menos ambíguo; e no último exemplo, não só se evitava toda esta confusão como também se satisfaziam todos os que consideram mesmo Eusébio ser o nome de um deus.

Concentremo-nos portanto na questão fundamental: o pão de deus é um bolo cujo nome implica o deus cristão (sendo portanto "pão de Deus"), ou é antes um bolo dedicado a um outro deus que na ocasião inspirou o padeiro?

Bem, se assim fosse, presumo que o nome correcto do bolo fosse "pão do deus". Note-se ainda que, se a intenção fosse expressar ser o bolo apreciado pelos deuses em geral, o nome seria provavelmente "pão dos deuses".

Ou seja, se ainda considerarmos que se trata de um doce português, o mais provável é que a designação seja mesmo "pão de Deus".

E pronto. Chegando a esta conclusão, termino por aqui esta divagação.

Amanhã de manhã, muito provavelmente comerei outro pão de Eusébio.

18 setembro 2006

Meneando a Cabeça

estava eu, um destes dias, sentado calmamente numa esplanada com a Meriel e a observar distraidamente os pombos que passeavam pelas redondezas, quando a minha atenção, após alguns instantes, se cravou no facto de, ao caminharem, aquelas criaturas abanarem a cabeça para trás e para a frente a cada passo que davam. se caminhassem mais depressa, também mais depressa agitavam a cabeça. o resultado é um movimento engraçado e que originou uma troca de comentários divertidos entre a Meriel e eu. no fundo, é uma cena a que assistimos praticamente todos os dias mas sobre a qual não reflectimos, tal como acontece com a maior parte das coisas com as quais estamos habituados a conviver. de acordo com a filosofia de vida que adoptei – a de insistente curiosidade perante as coisas mais banais - e intrigado com a causa daquele movimento, decidi investigar.

na realidade não são apenas os pombos que movem a cabeça ao caminharem - existe uma grande diversidade de aves que o faz - mas neste artigo vamo-nos concentrar neles em particular. a primeira teoria que encontrei sobre o assunto versava que os pombos movem a cabeça com o objectivo de manter o equilíbrio. ou seja, não se situando as pernas no local mais indicado de modo a equilibrar o peso do corpo e a mantê-lo estável, se a criatura caminhasse sempre com a cabeça esticada para a frente acabaria por se estatelar no chão.

não me pareceu muito sensato que, após centenas de milhar de anos de evolução, uma criatura ainda precisasse de um método tão pouco ortodoxo e incómodo para manter o equilíbrio. para além disso é fácil observar que os pombos, quando estão quietos, não tombam para a frente. ao que tudo indica as pernas dos pombos encontram-se no lugar certo para conseguir alguma estabilidade. após chegar a esta conclusão continuei a investigar.

se observarmos um vídeo em “câmara lenta” de um pombo a caminhar constatamos que na realidade a cabeça permanece no mesmo sítio enquanto o resto do corpo se move. depois, aquela é novamente “atirada” para a frente até o pescoço estar todo esticado e lá fica à espera que o resto do corpo a acompanhe. é precisamente a teoria baseada nesta observação que me parece a mais verosímil: este gesto faz com que a cabeça permaneça imóvel durante o maior tempo possível e, assim sendo, o pombo pode focar a visão de um modo mais eficiente.

de modo a garantir a sobrevivência, os objectivos de uma ave assentam em geral em conseguir detectar eventuais movimentos à sua volta que revelem simultaneamente potenciais predadores e presas. e o melhor modo de detectar movimento é o de permanecer quieto. esta técnica de imobilizar a cabeça durante um intervalo de tempo permite manter a mesma eficácia e obter resultados similares de observação enquanto se caminha. outros animais não fazem o mesmo porque o seu pescoço não é suficientemente longo para conseguir manter a cabeça estática durante um período minimamente interessante (note-se que o pescoço das aves que utilizam esta técnica é muito longo, apesar de não termos essa noção por ele estar normalmente encoberto por penas).

tendo aqui chegado e compreendido algo tão interessante sobre estes nossos pequenos companheiros, resta-me dizer que passei a respeitá-los um pouco mais, pois mostraram ser mais evoluídos do que eu pensava. mas continuo a achá-los cómicos...

Pirilampo a Pilhas

os pirilampos sempre me fascinaram pela luz maravilhosa que emitem. quando era pequeno e descobria um, entretinha-me durante horas a observá-lo interrogando-me como é que o bicho conseguia manter tão bela luminescência. após muito pensar, e influenciado pela minha juvenil inocência, formulei a hipótese lógica e óbvia que cada pirilampo deveria ter alojada, nalguma parte do seu pequeno corpo, uma pilha. a hipótese "pirilampo a pilhas" foi rejeitada imediatamente pela primeira pessoa a que a expus, que contrapôs com o facto de não existirem pilhas para pirilampos nem alguém que as colocasse, donde a única possibilidade seria que eles tivessem algum receptor de energia solar, armazenando assim de dia a quantidade necessária para a emissão nocturna da luz.

só muito mais tarde estudei que esta bioluminescência se deve à oxidação de um tipo de pigmento chamado luciferina, que é catalisada por uma enzima chamada genericamente de luciferase. esta reacção é muito eficiente, uma vez que quase toda a energia utilizada é transformada em luz. apesar de os pirilampos constituírem o caso mais conhecido do fenómeno, na Natureza existem muitos outros exemplos. a bioluminescência é utilizada pelos pirilampos sobretudo para localizar parceiros da mesma espécie para reprodução, e consoante a espécie pode variar a técnica (também existe o caso em que fêmeas de uma espécie imitam a iluminação característica de espécies diferentes, de modo a atraírem machos e assim os comerem... literalmente).

todas as pessoas curiosas passam, portanto, pela fase "pirilampo a pilhas": aquela em que colocamos as hipóteses mais absurdas para explicar coisas que testemunhamos à nossa volta e que queremos compreender. apesar de tudo, é uma fase necessária para cultivar a vontade de saber mais até chegarmos ao passo seguinte: aquele em que ou consolidamos a teoria que havíamos concebido inicialmente, ou a substituímos por outra baseada em novos conhecimentos entretanto adquiridos, construíndo assim o caminho para a sabedoria.

p.s.: entretanto, se alguém vos perguntar se os pirilampos funcionam a pilhas, digam-lhes que sim: a explicação científica dá muito mais trabalho a compreender e, para a maioria das pessoas, não serve para nada.

30 maio 2006

Bandeiras

o campeonato mundial de futebol está quase a começar e eu tenho uma dúvida: confesso que não percebo o ressurgir da moda de pendurar as bandeiras nas janelas. qual é afinal o objectivo?

aqui estão várias respostas que já me endereçaram, e as razões pela qual assumo que não são válidas:

mostrar ao mundo o orgulho que temos em ser portugueses
tendo em conta que passamos a vida a lamentar-nos precisamente disso, não me parece.

colorir as ruas
poderia ser, mas porquê só fazê-lo na altura dos campeonatos de futebol?

lembrar aos turistas da época balnear que estamos, de facto, mesmo em Portugal
para além da razão anterior e de isto ser perfeitamente estúpido, há uma grande probabilidade de um turista não conhecer a bandeira de Portugal. e, se conhecer, das três uma: ou se ofende por estarmos a duvidar da sua inteligência, ou está convencido que somos uma província espanhola e o efeito será nulo, ou conclui que somos todos saloios (é também muito importante salientar que não existem turistas da época balnear na maior parte dos bairros de lata deste país).

apoiar os jogadores da selecção
pronto, eu também sempre achei que era esta, mas não consigo perceber a linha de raciocínio. ora vejamos: no Euro 2004, quando esta moda começou, fazia sentido que os jogadores, ao viajarem pelo nosso país, encontrassem o apoio visual por tudo quanto era lado e assim se motivassem para os bons resultados (até o Ricardo se transformou!). mas acordem: o mundial é na Alemanha. Alemanha! os jogadores estão lá! não vão ver as bandeiras. o.k.? pronto.

portanto, se querem mesmo pendurar bandeiras com o objectivo de motivar os jogadores, o que têm a fazer é muito simples: apanhem um avião, aluguem um apartamento algures no país organizador do evento e ao pé dos estádios onde a selecção vai entrar em campo e pendurem bandeiras nas janelas. mas aviso já: tendo em conta os resultados obtidos pelos Sub-21, o efeito vai ser o mesmo de quando penduramos uma corda com o pai natal a subir por ela até à janela em Dezembro, com o objectivo de motivar o velhote a deixar prendas no sapatinho.