24 abril 2007

Nada

De súbito terminou aquela febre outrora incessante de copiar para o papel situações, sensações, criações e opiniões que surgiam em espiral do nada. À minha frente, apenas uma folha em branco. Minto, à minha frente estava, na realidade, uma janela do processador de texto vazia. O que era praticamente a mesma coisa.
E fiquei assim, durante uma curta eternidade (onde é que eu vou arranjar tantas expressões idiotas como esta?) à espera que me surgisse uma inspiração. Inspirei uma vez, inspirei outra vez e mesmo assim nada de inspiração.
Pensei em várias coisas que pudessem servir de ponto de partida. O amor, a vida, a natureza, o mar, a morte ou a música como exemplo para a ficção ou a poesia. Sobre a actualidade, o leque ainda era maior - desde política a futebol. Mas de uma forma ou de outra, numa altura ou noutra, já tinha escrito sobre tudo isso.
Continuei a olhar para o monitor.
Senti-me tão vazio como a janela do processador de texto.
Foi então que, após uma expiração, surgiu a inspiração.
Uma vez que já tinha escrito sobre tudo, porque não escrever sobre nada?
Agarrando-me firmemente a esta ideia, tentei dar o melhor escrevendo sobre nada.
Falhei.
A única coisa que consegui foi um pequeno texto de exactamente duzentas e vinte e nove palavras sobre a única vez em que tentei escrever sobre nada.

11 abril 2007

Contra-Ofensiva


10 abril 2007

Arte é...

Na sequência de um bastante aceso debate entre a ainda-não-engenheira-técnica, o ainda-não-engenheiro-não-técnico e o ainda-nem-licenciado-nem-engenheiro, deixo-vos com uma obra que considero verdadeiramente o resultado do clímax de uma alma artística:

Da Maravilha das Palavras
por Ragnav

Céu azul glorioso, vento fresco
Vegetais verdes, carros azuis e beiges
Putos que correm
Batatas, couves e agriões
Roulotes, cervejas e berbigões
Nada são e existem por ser
Saudade limpa das bolotas
Na serra de nuvens laranjas
No relance de um cão e das hortaliças
E no absorver expelindo o retirado
Ceifar casas pelas raízes e os aviões
Que voam no chão perto das baratas
E eu penso para comigo
“Que mundo verde!”

(publicado no Clandestinos a 20-07-2005)

Segundo o próprio, este poema foi inspirado pela não menos brilhante Synestesis. A minha interpretação, na altura também publicada, foi a seguinte:

Encontro neste texto uma maravilhosa crítica e dicionário de contrastes da sociedade dos tempos modernos: o trocadilho no futebol ("azul glorioso") - sintoma da decadência das massas - com o "vento fresco" que este traz ao fazer esquecer a crise; os "vegetais" e os "carros", natureza versus civilização poluente; a correria moderna dos executivos que nunca chegam verdadeiramente a ser pessoas adultas em contraste com a pureza grosseira dos agricultores e do público das roloutes de comida; coisas que apenas existem, sem ninguém que por elas sinta saudade após serem "servidas aos porcos" (o fim, a morte); os incêndios que dão colorido laranja ao horizonte, destruíndo quintas e animais, absorvendo tudo e deixando cinzas, arrasando casas e fazendo parecer que os aviões voam baixo, perto do pasto em chamas e dos bichos em fuga. No fim, reina a nostalgia de um mundo verde que o está a deixar de ser. Sublime!

09 abril 2007

Natal Moderno

num presépio de betão iluminado
o bebé olha em volta, preocupado
todos o deixaram abandonado
a vaca corre louca pelo prado
o burro quinou, era clonado
os reis bebem, no bar do lado
onde uma stripper canta o fado
e no sótão do casebre gelado
Maria chora porque José, coitado
após um dia sempre ocupado
a trabalhar na madeira e no gado
não consegue arrebitar, de fatigado

04 abril 2007

Post Scriptum

Post Scriptum #1: Rise Of The Knight

shred all guilt, destroy all sorrow
erase all hate, tear down shame
anihilate fear, burn down everything
and throw all you were to the flame
then from the ashes create a new self
a new deliverance to a new destiny
unfold strenght, peace and honor
fight for true love for all eternity


Post Scriptum #2: The Lame Poet

again another harsh day slips by you
while grief, sorrow, loneliness remains
until the day when two souls will collide
and free each other from all that pain
those halfs will stay forever as one
Life will begin, more colored and fun!
the days will slip by you all the same
but only sweet true Love will remain


Post Scriptum #3: Pain And Sorrow

the time has come for us to die
our throats are burning as we all cry
we live for pain as day and night
are equally showing a cancerous light
coagulating grey oceans lie
they're just awaiting our dive
mutant horizons, mutant skies
all our childs won't born alive
desecrating mother Earth
we're the sons condemned at birth
we all choke in screaming tunes
we all live in burning tombs

02 abril 2007

Doçaria Religiosa

Hoje de manhã entrei numa pastelaria e pedi um pão de deus. Soube-me bem.

Aliás, soube-me tão bem que decidi escrever um post com o seguinte conteúdo: "Hoje de manhã entrei numa pastelaria e pedi um pão de deus. Soube-me bem."

E escrevi.

Mas depois olhei para o que tinha escrito e, à falta de qualquer coisa melhor para fazer, comecei a examinar atentamente o meu texto. Surgiu uma dúvida: deveria antes ter escrito a palavra deus com a primeira letra maiúscula?

Normalmente escreve-se deus (substantivo) para referir um deus qualquer; Deus, por outro lado, é o nome do deus das religiões cristãs (aqui podemos encontrar alguma falta de originalidade na concepção das mesmas). O facto de alguém, num passado distante, se ter lembrado de chamar Deus ao deus ainda hoje gera uma enorme confusão. Isto porque nomes há muitos e, bem vistas as coisas, tanto podia ser Deus como Bernardo, Luciano ou Eusébio, o que seria muito menos ambíguo; e no último exemplo, não só se evitava toda esta confusão como também se satisfaziam todos os que consideram mesmo Eusébio ser o nome de um deus.

Concentremo-nos portanto na questão fundamental: o pão de deus é um bolo cujo nome implica o deus cristão (sendo portanto "pão de Deus"), ou é antes um bolo dedicado a um outro deus que na ocasião inspirou o padeiro?

Bem, se assim fosse, presumo que o nome correcto do bolo fosse "pão do deus". Note-se ainda que, se a intenção fosse expressar ser o bolo apreciado pelos deuses em geral, o nome seria provavelmente "pão dos deuses".

Ou seja, se ainda considerarmos que se trata de um doce português, o mais provável é que a designação seja mesmo "pão de Deus".

E pronto. Chegando a esta conclusão, termino por aqui esta divagação.

Amanhã de manhã, muito provavelmente comerei outro pão de Eusébio.