10 abril 2007

Arte é...

Na sequência de um bastante aceso debate entre a ainda-não-engenheira-técnica, o ainda-não-engenheiro-não-técnico e o ainda-nem-licenciado-nem-engenheiro, deixo-vos com uma obra que considero verdadeiramente o resultado do clímax de uma alma artística:

Da Maravilha das Palavras
por Ragnav

Céu azul glorioso, vento fresco
Vegetais verdes, carros azuis e beiges
Putos que correm
Batatas, couves e agriões
Roulotes, cervejas e berbigões
Nada são e existem por ser
Saudade limpa das bolotas
Na serra de nuvens laranjas
No relance de um cão e das hortaliças
E no absorver expelindo o retirado
Ceifar casas pelas raízes e os aviões
Que voam no chão perto das baratas
E eu penso para comigo
“Que mundo verde!”

(publicado no Clandestinos a 20-07-2005)

Segundo o próprio, este poema foi inspirado pela não menos brilhante Synestesis. A minha interpretação, na altura também publicada, foi a seguinte:

Encontro neste texto uma maravilhosa crítica e dicionário de contrastes da sociedade dos tempos modernos: o trocadilho no futebol ("azul glorioso") - sintoma da decadência das massas - com o "vento fresco" que este traz ao fazer esquecer a crise; os "vegetais" e os "carros", natureza versus civilização poluente; a correria moderna dos executivos que nunca chegam verdadeiramente a ser pessoas adultas em contraste com a pureza grosseira dos agricultores e do público das roloutes de comida; coisas que apenas existem, sem ninguém que por elas sinta saudade após serem "servidas aos porcos" (o fim, a morte); os incêndios que dão colorido laranja ao horizonte, destruíndo quintas e animais, absorvendo tudo e deixando cinzas, arrasando casas e fazendo parecer que os aviões voam baixo, perto do pasto em chamas e dos bichos em fuga. No fim, reina a nostalgia de um mundo verde que o está a deixar de ser. Sublime!

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